23.4.08

Tenho a língua nos dentes

Ouvir a voz dele é uma experiência sinestésica. O som de um sino grave a ressoar tão longe, tão perto, tão longe, tão perto, tão longe na onda que me dorme, acalma, hipnotiza. Por dentro, o coração é todo badalo. E vibro.

Pergunto se também isso seria fruto da doença latente que me habita desde tempos que não me lembro. “É possível que seja outra forma de manifestação”, ele me diz.

Eu queria não ter tantos seres invisíveis ainda incubados dentro de mim.

13.2.08

Balé de ralé

Silencio lá de cima de onde vejo
Seu cortejo
Arabescos, atitudes, piruetas
E beijos à francesa.

Enlace e entrelace de relações soltas para meu simples divertissement.


24.1.08

Nossos mitos

A deusa é mais da metade do nome, mas poucas sílabas não alcançam o olimpo dos pensamentos dele. Metaforizamos carros, futebol, aves e SPFW, figuramos em sonhos para acordar de um pesadelo insone, colorimos a pele como indivíduos de uma tribo de dois. No fundo, tudo não passa de mero rascunho.

3.1.08

A quoi?

20.12.07

1.12.07

"não se apaixone por mim"

(...) Na literatura, não é raro que um corpo amado e desejado seja comparado à paisagem de terras incógnitas. John Donne, num de seus mais lindos poemas (do século 17), chamou sua amada de “minha América, minha terra recém-descoberta”. De fato, há mesmo uma relação entre o amor e a verdadeira viagem. Vamos ver qual.
De vez em quando, tenho vontade de viajar. O que chamo de viajar não tem muito a ver com viagens de férias. Tampouco significa necessariamente desbravar terras virgens. Encontrei a melhor definição do que é viajar numa maravilhosa e breve fábula de José Saramago, que acaba de ser publicada, “O Conto da Ilha Desconhecida” (Companhia das Letras). O protagonista explica assim seu desejo: “Quero encontrar a ilha desconhecida. Quero saber quem eu sou quando nela estiver”.
Viajar é isto: deslocar-se para um lugar onde possamos descobrir que há, em nós, algo que não conhecíamos até então. Sem estragar o prazer dos leitores, só direi que, no fim da fábula de Saramago, talvez o protagonista não encontre sua ilha, mas ele encontra uma mulher. A moral da história é incerta, entre duas leituras opostas.
Primeira leitura: quem casa não viaja (a não ser de férias); casar-se é desistir de viajar. É o que pensam, com freqüência, homens e mulheres casados. E é também o que os leva, às vezes, a se separarem. Quando achamos que o outro nos impede de viajar, ou seja, que ele nos priva da aventura de descobrir o que poderia haver de diferente em nós, o casal se torna nosso inimigo. Claro, na maioria dos casos, acusamos o casal de uma inércia que é só nossa. Exemplo: anos atrás, na França, um amigo se interessava pelas pessoas que desaparecem sem razão aparente e refazem sua vida alhures, sob outro nome, como se tivessem sido vítimas de uma amnésia repentina. Em todos os casos em que meu amigo conseguira entrevistar esses “desaparecidos”, os mesmos constatavam que, depois de seu sumiço, em poucos anos, eles tinham reconstruído uma situação de vida parecida com aquela que tinha motivado sua fuga.
Segunda leitura: o protagonista descobre que a mulher ao seu lado é a própria ilha desconhecida que ele procurava e que a verdadeira viagem é o encontro com um outro amado. Faz todo sentido, pois o amor e a viagem, em princípio, têm isto em comum: ambos nos fazem descobrir em nós algo que não estava lá antes. O outro amado nos transforma. Tanto quanto a chegada numa terra incógnita, ele nos revela algo inesperado em nós.
Por isso, aliás, o viajante e o amante podem esbarrar em problemas análogos: às vezes, ao sermos transformados pela viagem ou pelo amor, não gostamos do que encontramos, não gostamos dos efeitos em nós do amor ou da viagem. Essa é, em geral, a única razão séria para se separar ou para voltar da viagem. Moral dessa coluna (e talvez da fábula de Saramago): os outros não são nenhum inferno, são uma viagem. Agora, para amar, como para viajar, é preciso ter determinação e coragem.

Contardo Calligaris - trecho de texto publicado no Jornal Folha de S. Paulo em 29 de novembro de 2007.

22.11.07

Nossos Mandamentos

Abrir o mar com a literalidade total do Livro que não verso e não proso. Livrar do sal e da vermelhidão essas retinas que têm se acostumado a ver marolas sem gosto e ondadas de desgosto. Pisar de novo o seco caminho de tuas terras sem promessas esperando que nelas não se tenhas afogado. Eu te resgato da tua seca enquanto me alças das águas deste bíblico dilúvio.